Arquivos de partituras musicais: o exemplo da cidade mineira de Resende Costa

Tenho comigo parte do que restou do arquivo da Orquestra Santa Cecília de Resende Costa/MG. Os papeis de música, entre manuscritos e impressos, associados a outras fontes materiais ou imateriais, são testemunho de atividades musicais ocorridas no Arraial da Laje de meados do século XIX até o encerramento das atividades do grupo musical ocorrido por volta de 1965. O que permaneceu guardado em casa sob os cuidados da minha mãe, Terezinha Macedo Lara Melo foi, por sua vez, organizado pelo seu pai e meu avô, Joaquim Pinto Lara (1887-1968). Ela, também musicista, cuidou para que o que permaneceu em nossa casa não se perdesse. Mesmo porque, fez uso dele em seu trabalho como organista e regente do coro que também levava o nome da Santa padroeira dos músicos. Certo é que, o que se tem guardado, não reflete a totalidade do arquivo do que possuiu a orquestra e coro ao longo da sua existência; uma parte se perdeu tanto nas sedes desses conjuntos, na Matriz de Nossa Senhora da Penha de França, bem como nas residências de músicos que participaram desses grupos musicais. É preciso considerar ainda a perda relativa ao uso inadequado e as más condições de acondicionamento que contribuem decididamente para seu desgaste e destruição.

A parte maior do arquivo é de partituras, partes avulsas (também chamadas de partes cavadas) vocais e/ou instrumentais, de repertório usado em cerimônias litúrgicas ou para-litúrgicas da Igreja Católica. A outra se constitui de música popular (valsas, por ex.), de métodos de estudo de instrumentos, programas de festas e fotografias, principalmente, fontes documentais que atestam a presença de músicos em bailes, festas cívico-populares e funerais. Enquanto instrumentista, compositor e regente da orquestra e da banda de música – meu avô tocava rabecão e saxofone, principalmente, – ele produziu parte significativa do arquivo aqui abordado. As partes cavadas para instrumentos e vozes eram de uso contínuo dos que participavam desses conjuntos musicais em ensaios e apresentações sob sua batuta.

Resende Costa, antes, Arraial da Laje, localizada na região do Campo das Vertentes em Minas Gerais, emancipou-se em 1912. Até então, pertencera a Tiradentes, antiga São José del-Rei. Próxima de São João del-Rei, Prados e de Lagoa Dourada, o repertório que dá corpo ao acervo aqui tratado tem, por isso, composições de músicos nascidos nesses lugares. Se considerarmos que cada vila possuía cantores e instrumentistas que se incumbiam de abrilhantar suas festas, dentre eles revelaram-se, naturalmente, compositores próprios do lugar. Devemos destacar que, às demandas surgidas, respondiam os compositores com obras novas. Não por acaso o número desses na Região do Campo das Vertentes em Minas Gerais é expressivo. Parte das suas composições pode ser ouvida sendo tocada por bandas de música, coros e orquestras ainda ativas em cidades do interior mineiro ou de outras regiões do país, como é o caso de Resende Costa.

Tomemos como exemplo, o compositor Manoel Dias de Oliveira. Alguns pesquisadores dão como certo o ano de 1735 para seu nascimento. Ele faleceu e foi sepultado em Tiradentes em 19/ago./1813. Foi militar (alferes) e se ocupou da função de Capitão da ordenança de pé dos homens pardos libertos do distrito da Lage da Freguesia de São José do Rio das Mortes, atual Resende Costa. Até o momento, suas músicas podem ser ouvidas dentro do calendário litúrgico, principalmente. Além de suas composições, boa parte destinada às celebrações da Paixão e Morte de Cristo, há no arquivo, obras de Antônio de Pádua Alves Falcão (1848-1927) outro tiradentino de expressão na região. Os seus Motetos de Passos e de Dores, missas e marchas fúnebres ainda são interpretados por grupos musicais das cidades vizinhas durante a Quaresma, a Semana Santa, missas solenes e funerais. É repertório obrigatório de tantas cerimônias das quais o povo participa, ano após ano. Ao lado desses músicos, aparecem o Padre José Maria Xavier (1819-1887) e João Francisco da Matta (18..-1909), ambos de São João del-Rei, João Evangelista Bernardes (1898-1989) de Lagoa Dourada e Antônio Américo da Costa (1867-1944) de Prados, entre outros, com um montante de obras que se acham, também, em tantos arquivos de corporações musicais do Campo das Vertentes mineiro.

O arquivo aqui abordado é, portanto, mais um testemunho da prática musical intensa vivida na região. O que destacamos de Resende Costa, é comum em inúmeras cidades brasileiras. Nelas, há acervos documentais, manuscritos musicais de autores que ainda não mereceram estudo de especialistas para serem colocados ao alcance de intérpretes e pesquisadores dedicados ao estudo da cultura, da história e da música brasileira. Para ilustrar, anexamos cópia da página inicial da partitura de dobrado composto por Joaquim Pinto Lara. Nela ele deixou grafado “Por Jm Pinto Lara, de Resende Costa” e na última, a seguinte informação: “Jm Pto Lara, 16-3-56. (69 anos)”. Ele compôs o dobrado no dia do seu aniversário.


Edésio de Lara Melo é regente coral, Doutor em História pela UFMG e professor na Escola de Música da Universidade Federal de Ouro Preto.