As múltiplas ações de Daniel Neves em prol da música

As múltiplas ações de Daniel Neves em prol da música

Daniel Neves é um dos principais executivos do mercado musical no país. Seus 16 anos de trabalho à frente da revista Música & Mercado (publicação voltada para a indústria musical) somados aos 5 anos à frente da ANAFIMA (Associação Nacional da Indústria da Música) o credenciam para falar com propriedade sobre o mercado musical brasileiro. Nesta entrevista, conversamos sobre o momento econômico do país, as perspectivas para 2019, a relação dos fabricantes com o setor de educação musical, a importância de eventos como a Make Music, entre outros temas de interesse de todos os profissionais da música.

Ouvimos, com frequência, que o mercado musical sofre uma crise prolongada. Nesses 16 anos à frente da revista Música & Mercado e 5 como presidente da ANAFIMA, você concorda com essa visão?

É um tema complexo. O mercado musical é vinculado ao mercado de cultura, entretenimento, educação musical nas escolas, além do hobby de tocar um instrumento musical. Em sociedades economicamente evoluídas, a música é tratada como meio de vida  e ocupa destaque na sociedade. No Brasil, a música, erroneamente, ainda é vista como algo terceiro, como se não gerasse ou agregasse nada.

Não adianta somente “dar valor” ao músico, é necessário dar condições ao empreendedorismo na área da música. Sob o ponto de vista da formação musical, historicamente o mercado só teve um grande avanço quando tivemos a música nas escolas. Se a música é vista como menor prioridade, o mercado ficará à mercê do acaso e, principalmente, da economia. Esse tema realmente dá o que falar!

As marcas tradicionais do mercado musical estão se reinventando para se adaptar à era digital?

Sim. Uma coisa que sempre falo é que o instrumento pode mudar, mas o ato de fazer música é inerente ao ser humano. O instrumento se altera devido à tecnologia,ao  acesso a novos materiais e à própria evolução da forma de composição. Instrumentos estão cada vez mais conectados à internet, bluetooth ou mesmo criando redes de wifi. Conexão não é tendência, é necessidade também para o instrumento musical e seus acessórios.

Muitos educadores musicais e escolas estão aderindo ao ensino online. Essa nova realidade pode abrir um novo horizonte para os fabricantes de instrumentos musicais, áudio e acessórios?

Importante questão, Roger. Estamos vivendo no meio de uma fase de transição. A educação digital chegou e está impactando a receita das escolas tradicionais. Se por um lado, a informação está mais barata, por existir a possibilidade de gravar um vídeo e disponibilizá-lo por ⅙ do valor que seria vendido, há o ganho em escala. O ensino por Skype ou outras plataformas também tem sido de grande valia para a economia de tempo na locomoção.

Essa nova forma de aprender e ensinar impacta e está também ensinando as empresas a como estabelecerem uma nova relação com os professores e os alunos.

Os fabricantes veem o setor de educação musical como um parceiro importante?

Sim. Vejo constantemente parceria entre as escolas que se destacam e as empresas do mercado musical. Já o mesmo não encontro com frequência no meio acadêmico/universitário, entre educadores e empresários, diferente do que vem ocorrendo nos Estados Unidos, China, Europa e Japão. O mercado é um só, e todos têm suas vantagens e seus benefícios.

Em 2018, foi realizada a segunda edição da Make Music Brasil – Semana Nacional do Ensino da Música. Quais os objetivos da campanha? Ela vem alcançando bons resultados? Os professores e as escolas estão se engajando?

O Make Music é uma iniciativa global para fortalecer o conceito da importância do ensino da música. A mecânica do projeto é muito simples, mas, feita em massa, o resultado é extremamente positivo na mídia. Basicamente, convidamos empresas, profissionais e/ou amadoras, para doarem uma aula de música em algum lugar público. Pode ser escola, conservatório, loja de música, e a apresentação em locais como shopping centers, praças, escolas de ensino fundamental etc. Sabe aquela história de “a primeira aula é grátis”? Então, basicamente é isso que pedimos. Como é um projeto que ocorre em mais de 10 países, é um evento que chama atenção para a importância do tocar um instrumento.

Só para você ter uma ideia, tivemos, em 2018, mais de 600  horas de aulas , em duzentos eventos em todo o território brasileiro. É uma ação muito simples, mas eficaz.

Para participar deste movimento pró-música, é só entrar na página https://www.facebook.com/makemusicbrazil e se inscrever.

A ANAFIMA assinou um acordo de colaboração com o MEC para colaborar com a Plataforma Integrada de Recursos Educacionais Digitais. Quais os objetivos dessa iniciativa?

O principal objetivo é levar educação musical gratuita por meio de áudio, vídeo e texto para mais de 22 mil escolas do ensino público. Os professores que quiserem colaborar com a ANAFIMA/Educação Conectada devem ter seus materiais no sistema Creative Commons, ou seja, doar uma aula, um curso ou algo para que possamos ampliar o acesso da educação musical.

Após a constatação da não aplicação da Lei nº 11.769, referente à obrigatoriedade do ensino de música nas escolas, nós continuamos os diálogos com o governo brasileiro para que, ao menos, estivesse presente no programa Educação Conectada. Liane Hentschke, diretora de Educação Musical da ANAFIMA, e eu estivemos dezenas de vezes em Brasília para operacionalizar isso. Assinamos formalmente com os dois Ministros da Educação, Mendonça Filho (2017) e Rossieli Soares (2018), como parceiros do projeto.

O Educação Conectada (link: https://bit.ly/2Rk2uge) integrará os diversos materiais digitais educacionais já desenvolvidos pelo próprio MEC e por institutos e fundações parceiras, como Lemman, Roberto Marinho, Crescer, Inspirare, Telefônica, Natura, Educadigital e ANAFIMA – Associação Nacional da Indústria da Música.

Gostaria de colocar um pedido aqui, publicamente, para aqueles que quiserem participar deste programa de Educação Conectada do MEC: falem conosco através do site da ANAFIMA (link: http://www.anafima.com.br).

Quais as frentes de trabalho da ANAFIMA e da revista Música & Mercado?

Procuro separar bem. A ANAFIMA é meu trabalho de doação de tempo e paixão pelo setor. A Associação tem como missão unir o mercado em prol da música e fazer com que a atividade musical seja vista com mais respeito. Trabalhamos a parte política do setor, em contato com Deputados, Vereadores, Ministros e outros do Poder Público. Compreendemos que existem entidades que cuidam da educação musical em si, outras que cuidam de direito autoral ou músicos independentes etc. Nós não competimos com elas. Somos um braço político para elas, pois tudo resultará em um melhor mercado. É disso que gostamos e fazemos bem.

Você projeta boas expectativas para o mercado musical em 2019?

Vou falar em dois vieses. O econômico tende a ser melhor caso as reformas sejam aprovadas. Investidores estão esperando por isso e, como consequência, haverá mais dinheiro circulando. Assim, o entretenimento e a cultura terão mais público e investimento por parte dos consumidores dessa cadeia.

O outro viés é o político. Pelas informações que tivemos, o papel do Ministério da Cultura, agora como uma pasta do Ministério da Cidadania, passará por mudanças severas, mas não significará a morte da cultura, como apregoam. Se eu gostaria que o Ministério da Cultura fosse extinto? Claro que não! Mas entendemos que temos que trabalhar para melhorar todo o sistema (da música, cultura, etc) e seremos sempre interlocução da classe, não importa o governo.

Creio no trabalho com diplomacia e inteligência, isso trará resultados melhores para o entendimento da música como fator para geração de emprego, aumento do turismo, além do que a música traz para o espírito humano.


[icon name=”hand-o-right” class=”” unprefixed_class=””] Saiba mais sobre o trabalho de Daniel Neves em www.musicaemercado.org e www.anafima.com.br

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