Instrumentos de época renascem com o grupo de música antiga “A Canção das Iluminuras”
Foto: divulgação

Leopoldo Balestrini, idealizador da orquestra, fala sobre Música Antiga, o acervo de livros e partituras do grupo, a construção dos instrumentos de época e os próximos projetos do grupo.


Concertista: A Música Antiga é rica em quantidade e variedade de obras para inúmeras formações e tipos de instrumentos. Como o grupo pesquisa e seleciona o repertório?

A Canção das Iluminuras: Na medida do possível, fazemos uma pesquisa histórica de fatos relacionados, direta ou indiretamente, com a história europeia e brasileira, entre os séculos XV a XVII. A partir daí, pesquisamos obras musicais que ilustrem o contexto em que as peças foram compostas, de modo que os ouvintes possam também se familiarizar e absorver a incrível atmosfera daquela época, imersa em uma rica cultura, na qual a prática musical era fundamental para dar vida a todos os eventos cortesãos e religiosos.

Concertista: A notação musical medieval e a renascentista permitem decifrar a estrutura musical, as ideias e as intenções do compositor?

A Canção das Iluminuras: Sim, porém é necessária uma especialização muito grande, especialmente em relação à música do período medieval, pois sua notação é bastante complexa. Felizmente está disponível, inclusive gratuitamente na internet, um grande número de obras musicais já na notação moderna, editadas por excelentes musicólogos, das quais fazemos uso.

Concertista: O grupo possui um importante acervo de livros e de instrumentos. Quais as raridades que se encontram nele?

A Canção das Iluminuras: O grupo possui mais de 35 instrumentos de época, adquiridos exclusivamente com recursos próprios (ou seja, fora de quaisquer leis de incentivo cultural), formando um acervo de excepcional qualidade e quantidade.
Dentre esses instrumentos, destacam-se os krumhorns, o órgão portátil (organetto), o órgão positivo, a cornamusa, os shawms, a bombarda, as rabecas, o chalumeau, os gemshorns, os sacabuches, a dulciana, os cornettos, as vielles e os violinos renascentistas, as violas da gamba, a vihuella, a viola da braccio, as flautas doce Kynseker, a viela de roda, os tímpanos renascentistas, o clavicórdio e um cravo.

Também contamos com a colaboração de Alexsandro “Caviúna” Novais, integrante do próprio grupo, responsável pela confecção de boa parte do nosso acervo instrumental. Já foram construídos, exclusivamente para nossas temporadas, três violas da gamba, vielle de roda, vihuella, arcos, órgão portativo, arquealaude e atualmente está em montagem um cravo.Contamos também com a colaboração de outros luthiers do Brasil e também do exterior.

A literatura sobre Música Antiga é bastante vasta, tanto aquela relacionada com a performance, quanto aquela que trata da história da música e dos instrumentos musicais então utilizados.

Atualmente temos uma centena de livros sobre o assunto, entre os quais destacamos a edição original de Higino Anglés sobre a música hispânica do período medieval e renascentista. Ressaltamos que o acervo bibliográfico também foi adquirido com recursos próprios.

Concertista: Como é o processo de construção dos instrumentos antigos utilizados pelos músicos?

A Canção das Iluminuras: Para os instrumentos de cordas/teclados, o primeiro passo é pesquisar os instrumentos usados nesse período. Na sequência, procuramos identificar se existe algum registro do instrumento na literatura ou na iconografia da época e se está disponível a planta que referencia sua construção. Por fim, repassamos para o Alexsandro Caviúna a tarefa de construí-los.

No caso do órgão positivo, o organeiro Ricardo Clerice, de São Paulo, está concluindo sua montagem.

Os instrumentos de sopro foram adquiridos, já prontos, de luthiers europeus e americanos.

Pesquisamos obras musicais que ilustrem o contexto em que as peças foram compostas, de modo que os ouvintes possam também se familiarizar e absorver a incrível atmosfera daquela época, imersa em uma rica cultura, na qual a prática musical era fundamental para dar vida a todos os eventos cortesãos e religiosos.

Concertista: Quantos músicos integram o grupo? E quais os projetos de vocês? Está nos planos a gravação de um CD?

A Canção das Iluminuras: Integram o grupo 30 músicos, 18 instrumentistas e 12 cantores, formando uma verdadeira CAPELLA, nos moldes dos conjuntos musicais da Renascença. Esses músicos possuem as mais variadas formações e vivências artísticas, passando por jazz, música folclórica, música sinfônica e docência musical, e, também, pela interpretação da chamada Música Antiga.

Atualmente estamos preparando uma temporada com três séries de concertos. Nossa intenção para 2018/2019 é fazer uma temporada que abrangeria as seguintes séries:
– História do Brasil : em que faremos um programa relacionado aos principiais eventos de nossa história nos dois primeiros séculos de colonização, ilustrando, pela música, os principais aspectos desse processo rico em misturas, inovações, sincretismos e contradições. Teria o Brasil holandês, o Brasil judaico, o Brasil equinocial, o Brasil calvinista, o Brasil dos jesuítas etc.
– Música sacra: com as obras renascentistas executadas nas grandes catedrais ibéricas.
– Música mundana: canções e danças da Renascença, com bailarinos inclusive.

Pensamos em fazer, ao longo do ano, seis concertos com pelo menos dois programas diferentes, todos com entrada franca, no estilo arte educação.

Quanto ao CD, estamos priorizando as postagens de vídeos nas redes sociais, que, no nosso entendimento, é uma alternativa com maior alcance e menor custo.

Entretanto, estamos passando por um período muito desfavorável, reflexo da conjuntura em que o país está vivendo. Até o momento, não captamos nem o mínimo necessário para iniciarmos os trabalhos de ensaio e apresentações. Se persistir tal situação, corremos o sério risco de ter, prematuramente, encerradas nossas atividades.

fb.com/cancaodasiluminuras


Publicado na 3ª edição da revista CONCERTISTA

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