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A educação musical encontra a internet

Uma legião de educadores musicais estão escrevendo, na web, um novo capítulo no ensino da música

por Roger Canesso | Abr – Mai 2019

A tela do celular é a nova partitura?

É possível aprender teoria musical, cantar ou tocar um instrumento pela internet? Para um grupo cada vez maior de educadores musicais, a resposta é um sonoro sim! O entusiasmo desses profissionais é justificado, afinal, vivemos em um mundo ultraconectado, no qual o ensino da música pela rede é uma realidade e não mais um futuro distante. Portanto, não há tempo a perder, e esperar definitivamente não é uma opção.

Porém, mesmo com todo o entusiasmo frente às múltiplas possibilidades abertas pela internet, o ensino/aprendizado musical na rede precisa ser amplamente debatido. As variáveis são complexas, vão do desenvolvimento da percepção auditiva aos movimentos finos da técnica instrumental, passando pelo canto. Outro complicador é o fato de o ensino da música ser baseado na relação presencial entre o mestre/músico e o aprendiz, na qual os mínimos detalhes de postura, da construção do som, do fraseado e das articulações são ouvidos, vistos e corrigidos de perto. Mas em que pese a tradição, não podemos nos furtar a encarar uma realidade inexorável: a internet vai mudar a educação musical de forma irreversível. É ilusão acreditar que o aprendizado da música ficará de fora da rede, ao contrário, estará cada vez mais presente no dia a dia de quem ensina e de quem aprende.

A imagem do músico apartado das mudanças ao seu redor, que não se envolve com nenhuma questão que não seja exclusivamente da esfera musical ficou para trás. Estamos diante de uma realidade à qual a literatura musical precisará se adaptar, ser revista e algumas práticas e crenças abandonadas. O domínio do conteúdo musical é condição necessária, mas não suficiente para se inserir em um mercado de trabalho que terá como uma das principais características a incorporação da internet das coisas e da inteligência artificial. Dentro de alguns anos, a web será acessível a todos os habitantes do país (e em algum momento para todos os habitantes do planeta).

Não está convencido? Então, atente-se a esses dados: segundo o suplemento “Características gerais dos domicílios e dos moradores 2017”, da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em abril de 2018, 70,5% dos lares brasileiros passaram a ter acesso à internet, o que corresponde a 49,2 milhões de domicílios conectados. Outro dado importante é o número de residências com pelo menos uma pessoa dona de uma linha de telefone móvel. Segundo a pesquisa, são 92,7% de lares, sendo que 69% dos entrevistados afirmaram que se conectam à internet por meio de um smartphone. É razoável supor que uma parcela dessa população acesse a rede para adquirir uma nova profissão, aperfeiçoar uma habilidade e, porque não, aprender a cantar ou a tocar um instrumento musical.


A internet é um ambiente anárquico, no qual cada usuário pode iniciar sua própria revolução (ou sua escola de música virtual). Esse parece ser o desejo dos milhares de educadores musicais que migraram para a web e que estão cada vez mais dispostos a fazer da rede o seu principal ambiente de trabalho. Uma rápida pesquisa no Youtube com os termos “aula de violão”, “curso de música”, “aula de canto”, etc, retornará uma avalanche de vídeos, muitos amadores, mas outros bem produzidos e com excepcional qualidade técnica e de conteúdo, demonstrando que produzir para a internet se tornou uma profissão.

Mesmo com toda a melhoria técnica e de conteúdo das aulas de música pela internet, ainda estamos no início dessa jornada. Logo, esse é o momento de pensar o ambiente digital como um meio com características próprias, só assim será possível escapar da armadilha de tornar a educação musical online em uma reprodução do ensino presencial. “Estamos numa transição em que ainda não sabemos, com clareza, quais são as tecnologias disponíveis e como selecioná-las e usá-las em nossas aulas pela internet. Por esta e outras razões, corremos o risco de reproduzir o mesmo perfil tradicional e conteudista em nossa atuação online. Nesse modelo, as aulas são normalmente gravadas com um conteúdo preestabelecido, expositivo, sem interação com o público. Para mim, o principal desafio é proporcionar uma nova experiência de aprendizado musical, uma nova forma de dar aulas, que empregue os aspectos tecnológicos para auxiliar no compartilhamento de informações e vivências. Ou seja, explorar as metodologias ativas, principalmente em projetos sugeridos pelos alunos, para que a tecnologia possa dar suporte a um aprendizado dinâmico, vivo e que integre pessoas de diferentes idades, formações, estados ou países”, alerta Marisa Ramires. A educadora musical é uma das mais conceituadas profissionais da área no país. Professora universitária por 30 anos e autora de livros sobre harmonia e teoria musical, Ramires trabalha há cerca de dois anos e meio pela internet.

Marisa Ramires. Após 30 anos de trabalho como professora universitária, passou a ensinar música pela internet. Foto: divulgação.

O desafio de proporcionar um conteúdo relevante que estimule os alunos a estudar também é destacado por Pedro Lopes, da Musicdot, uma escola de música com vários cursos, todos online. “O maior desafio é ter a certeza da qualidade do aprendizado do aluno sem estar com ele por perto, mas existem formas de se contornar a questão. A primeira, mais óbvia, é criar um canal de comunicação com o aluno, no nosso caso o fórum, em que ele pode enviar dúvidas e também gravações para o professor orientá-lo. A segunda é a adaptação da didática. É aqui que está o grande diferencial de um bom curso online. O maior erro que vemos por aí é o professor pegar a mesma aula que dá aos alunos presenciais e simplesmente gravar. Se não há uma adaptação para a realidade do online, a aula não vai funcionar.”

Pedro Lopes. Professor na escola de música virtual Musicdot. Foto: divulgação.

Os desafios apontados por Lopes e Ramirez se somam a outros bastante conhecidos dos professores. Um deles é a motivação, “o maior desafio é fazer os alunos estudarem. Estudar música é algo que exige paciência, e poucos querem estudar diariamente. Porém, o problema dos alunos estudarem também existe com professores particulares, em faculdades e em aulas a domicílio”, aponta Fabricio di Paolo, conhecido na internet como Lord Vinheteiro. Seu canal no Youtube está próximo de completar 3,5 milhões de inscritos. Di Paolo também oferece um curso online de piano através da Lord Music Academy (e vê o número de inscrições só aumentar).

Patrícia Mertzig (docente na Unoeste e pesquisadora do ensino de música a distância) também toca no tema da motivação e do engajamento. Para ela, “aprender música depende de um bom envolvimento do estudante com seu objeto de estudo e, no ensino presencial, isso fica ancorado no estar presente em locais e horários determinados. No ensino a distância, como não há essa necessidade, isso dependerá e muito da organização de tempo para estudar por parte do aluno. Claro que o material, o conteúdo e a metodologia devem ser elaborados com qualidade e especificamente para a internet, além de professores que saibam ensinar na modalidade a distância (também precisamos de professores engajados com as Tecnologias da Informação e Comunicação – TIC)”. A professora, que publicou artigos sobre EaD em música, também chama a atenção para a necessidade de o aluno se dedicar a questões que vão além do conteúdo musical. “Na sala de aula virtual, ainda pontuo outro desafio: o estudante precisa se habituar à leitura e à escrita: desde compreender um enunciado de atividade, um tutorial de como usar um software para compor música, por exemplo, ou ainda ler, compreender, refletir, comentar, questionar textos e músicas sobre o assunto estudado”.

O pianista Fabricio di Paolo. Seu canal no Youtube está próximo de obter 3,5 milhões de inscritos.

O conteúdo musical tem uma série de peculiaridades que precisam ser levadas em consideração também no ensino online, a mais óbvia delas é a qualidade do som, que precisa mostrar com clareza não apenas a explicação do professor, mas também o timbre dos instrumentos, as articulações e o fraseado das obras e exemplos musicais. Já os vídeos devem exibir com riqueza de detalhes o posicionamento das mãos, os desenhos dos acordes, as arcadas e outras questões técnicas.

Uma vez superados os desafios tecnológicos, é inevitável perguntar: qualquer conteúdo musical pode ser ensinado pela internet? “Acredito que sim, desde que seja bem filmado e explicado”, pondera Fabricio di Paolo. Marisa Ramires aponta que o conteúdo musical “certamente pode ser transmitido pela rede, porém, a atuação de um educador ultrapassa esse objetivo”. Ela vê no professor um agente central na busca por excelência. “O conteúdo não transforma pessoas, o que faz a diferença é a presença e a ação do professor no convite à reflexão, à troca de experiências e à vivência prática. Esta postura demanda dedicação, interatividade e criatividade. Sem dúvida, fazer isso pela rede é uma descoberta contínua e permanente”, observa Ramires. Pedro Lopes também integra o time dos educadores musicais que acreditam na rede como um meio eficaz para aprender música. Sua experiência na Musicdot comprova a eficácia da internet no ensino musical, ele afirma que “não há nenhum ponto da música em que não tenhamos colhido resultados satisfatórios com os alunos”. Porém, ressalta que um curso online não é para todos. “Há uma parcela de alunos que precisam de um acompanhamento mais individual, e nós mesmos costumamos indicar um professor particular para dar essa assistência quando necessário. O mais interessante é que é uma situação rara de aparecer. Até porque uma pessoa que identifica essa dificuldade não costuma procurar um curso online, ela mesma já se direciona para o presencial.”, revela Lopes. A professora Patrícia Mertzig corrobora a mesma opinião dos demais e lembra que “alguns estilos musicais contemporâneos já foram criados para computadores, ou seja, já utilizam essa tecnologia e isso nem é novidade do presente século. Além disso, todos os outros estilos utilizam a internet como principal meio de divulgação. O que poderia ficar de fora seriam conteúdos que foram desenvolvidos para compor músicas em períodos históricos nos quais a internet não existia, como, por exemplo, a métrica, a altura definida e a escrita musical tradicional. Mas sabemos que grande parte dos softwares, aplicativos e aulas por meio de vídeos e tutoriais abordam exatamente este conteúdo musical, não é? Então, com a quantidade de recursos tecnológicos disponíveis na atualidade, penso que qualquer conteúdo em música pode ser ensinado pela internet. Talvez uma reflexão mais abrangente para o momento atual seria questionar quem são os sujeitos que ensinam e quem são os que aprendem qual ou quais músicas pela internet.”, conclui Mertzig.

Patrícia Mertzig. Professora universitária e pesquisadora do ensino de música a distância. Foto: divulgação.

Diariamente, professores de todas as áreas são desafiados a lidar com gerações de alunos que nasceram e estão crescendo em um mundo digital, rápido, conectado, global e que não aceita esperar. Portanto, é vital indagar: a formação dos educadores musicais precisa mudar? Patrícia Mertzig acredita que sim. “Penso que a formação do professor de música no Brasil precisa ser revista sim. Muitos cursos de graduação em licenciatura em música têm dedicado poucas disciplinas sobre a tecnologia. O que observo é o esforço de muitos professores em incluir em suas práticas pedagógicas conteúdos e metodologias que envolvam as TIC, mas isso acaba se cristalizando em ações individuais e não fazendo parte de uma discussão curricular de forma mais ampla”, observa Mertzig. Outro ponto que chama a atenção da professora é o espaço que os cursos dedicam para o estudo da técnica instrumental. “Sei que essa questão é bem delicada, mas o que vejo, no cotidiano, são estudantes de música com pouca paciência para estudar repetidamente os exercícios que sabemos que são necessários a uma boa execução instrumental e vocal. Parece-me que a repetição exigida e mesmo o interesse por isso não fazem mais sentido no mundo digital em que estamos imersos, cuja resposta ao que buscamos chega muito mais rápido se comparado ao tempo que nos debruçamos sobre um instrumento musical para tocar de forma a nos satisfazer”.

Marisa Ramires também aponta a necessidade de mudanças: “Acredito na necessidade urgente de mudanças na formação dos educadores musicais. Contudo, é importante ressaltar que a formação de um educador se constrói por um processo que envolve informação, vivência, reflexão, observação, respeito, humildade, afetividade e transformação contínua. Assim, ressalto a necessidade de o candidato a educador iniciar sua formação musical antes do seu ingresso em um curso superior de licenciatura em música. Outro aspecto fundamental a ser lembrado é que esse processo não se encerra com a obtenção de um diploma universitário”. Ramires também ressalta que “os educadores musicais atuais, em geral, passaram por um processo tradicional de ensino e acabam reproduzindo o mesmo formato de aulas, com práticas pouco criativas e participativas. Consequentemente, sua adaptação à realidade digital, em que alunos permanentemente se encontram ativos e conectados, é difícil e lenta. Penso que os cursos superiores poderiam minimizar essa falha na formação dos educadores musicais ao contemplar experiências ativas do fazer musical e da prática docente. Desta maneira, o aluno seria convidado a participar de projetos que compartilhassem experiências educacionais reais e significativas; a vivenciar práticas de empreendedorismo; a aprender sobre captação e gerenciamento de recursos; a desenvolver planos de comunicação em mídias sociais como Facebook e Instagram; a divulgar seus projetos em um canal no YouTube. Tudo isso é muito dinâmico e exige energia e investimento em um aprendizado contínuo, amplo, multidisciplinar e responsável. Para que essas transformações sejam possíveis no nível superior de música, todos precisam colaborar de forma ativa e criativa, como agentes de transformação e formação de um público musical”.

Quando falamos sobre a formação de professores, não podemos deixar de fora a principal instituição responsável por formá-los: a universidade. Aos poucos, ela se movimenta na direção de oferecer disciplinas e cursos na modalidade EaD (a Universidade Federal de São Carlos e a Universidade Federal do Rio Grande do Sul são duas instituições que oferecem cursos de graduação em licenciatura em música a distância).  Mas muitos educadores musicais e professores universitários ainda demonstram ceticismo quando o assunto é o ensino de música a distância. Para os que ainda se mostram reticentes com a modalidade, Patrícia Mertzig recomenda ao menos “escutar o que os estudantes têm a dizer sobre isso: o que eles gostam na internet, que sites costumam frequentar, o que aprendem sobre música e outros assuntos no mundo virtual”.

O ceticismo da academia talvez se justifique com relação ao ensino de instrumento ou canto pela internet, uma vez que os cursos de bacharelado têm como premissa formar músicos voltados para a performance, e talvez por essa razão os professores creem que não seja possível obter a excelência interpretativa sem o contato presencial entre professor e aluno. Mas isso não pode ser usado como barreira para bloquear o debate. “Há muitos cursos no exterior de universidades renomadas que já ofertam cursos de instrumento musical, inclusive, a distância. Isso porque a universidade também está passando por um processo de renovação e inovação. Nosso estudante pertence a uma geração diferente da nossa, e precisamos aprender com eles o que e como ensinar.”, ressalta Patrícia Mertzig.

Para os educadores musicais ouvidos nesta matéria, o ensino de música online é um caminho sem volta. “O futuro do ensino (ensino de qualquer coisa) será via internet. Aliás, isso é uma bênção, pois você pode fazer aula na hora que quiser, sem depender de horários.”, afirma Fabricio di Paolo. Para Diego Lopes, a modalidade tende a crescer e a conquistar cada vez mais adeptos: “hoje vemos cada vez mais cursos sendo disponibilizados inclusive por grandes nomes da música, o que valida muito a modalidade online”. Marisa Ramires acredita que “não se trata do futuro, mas sim do presente. A internet já ocupa um espaço significativo na educação e isso tende a crescer cada vez mais”. Mertzig também acredita que o movimento é sem volta: “A internet é uma tecnologia que se assemelha em grandeza e impacto com outras tecnologias em períodos passados, como, por exemplo, a invenção da luz elétrica ou ainda a prensa de Gutemberg no século XV”, e prossegue: “para mim, a internet, voltada à educação, segue como uma ampliação na forma de ensinar e aprender, como uma nova ferramenta. A questão está em quem acessa, como acessa, quais os objetivos educacionais desejados ao utilizar a internet na educação”.

Ao que tudo indica, a nova era da educação musical está emergindo da internet, e o futuro que nos espreita nunca foi tão incerto. É urgente os educadores musicais, as escolas, os conservatórios e as universidades de música se reinventarem, ou correrão o risco de as novas gerações de alunos não se reconhecerem no modelo de ensino oferecido a elas. ♦


Roger Canesso é editor da revista Educador Musical. Estudou Licenciatura em Música na Universidade do Estado de MG, Formação do editor de livros na Casa Educação e especialização em Projetos Editoriais pelo Centro Universitário de Belo Horizonte UNA-BH.


08 | Educador Musical