Artigo

Improvisação e Composição – recursos pedagógicos no ensino do piano

por Laura Longo | Abr – Mai 2019

Atualmente tem crescido o interesse pela utilização de atividades de improvisação e composição no ensino de instrumentos musicais. Muitos autores vêm se dedicando a escrever sobre práticas criativas, demonstrando seus benefícios não só para o aprendizado da música, mas também para o desenvolvimento pessoal emocional e cognitivo.

Destaco a autora e professora argentina Violeta H. Gainza, que deu uma grande contribuição na difusão de práticas criativas no ensino de instrumentos, por meio de seus livros, seu protagonismo em instituições como o Fórum Latino-americano de Educação Musical – FLADEM, sua atuação em congressos e cursos. Sua presença em muitos eventos no Brasil colaborou para a propagação de suas ideias para a pedagogia musical brasileira.

Ao improvisar, é importante se permitir tocar com liberdade, com o foco no som, não nos dedos, sem receios ou julgamentos de certo ou errado.

Este tema começou a me inquietar na época em que cursava o Bacharelado em Piano na USP, por notar que alguns músicos apresentavam habilidades de leitura e técnica, porém com dificuldades de tocar de ouvido ou criar, já outros possuíam habilidades criativas e apresentavam dificuldades de leitura e técnica. Em seguida, dando aulas de piano, senti a necessidade de trabalhar improvisação com os alunos, para que eles tivessem mais liberdade ao instrumento e não ficassem restritos somente à leitura de partituras.

Por não ter tido essa vivência, comecei a buscar ideias e pesquisar como desenvolver essa prática. Aos poucos, fui me aventurando, utilizando modelos de improvisação bem simples. Fruto de minhas experimentações, compus algumas músicas lançadas no livro Divertimentos, em 2003. Nesta obra, tive o intuito de oferecer aos alunos peças que utilizassem toda a extensão do piano, vários ritmos, tons e modos que fossem musicalmente interessantes, a fim de proporcionar a exploração de elementos expressivos da música, além da leitura e da técnica instrumental. Para cada música, acrescentei uma sugestão de atividade para que o aluno pudesse ampliar suas vivências musicais e desenvolver sua audição e criatividade.

Penso ser importante um ensino amplo e abrangente desde o início do aprendizado, considerando que não é possível saber quais serão os desejos, as necessidades e as oportunidades futuros dos nossos alunos em relação à música.

Nesse contexto, considero que a improvisação e a composição podem ser usadas como importantes recursos pedagógicos, podendo trazer muitos benefícios ao aluno e ao seu aprendizado musical. Destaco alguns:
– Colaboram no desenvolvimento da imaginação, criatividade, atenção, concentração e memória;
– Promovem o conhecimento do teclado;
– Favorecem o desenvolvimento da percepção auditiva;
– Facilitam o aprendizado de elementos da linguagem musical como: pulso, ritmo, compasso, escalas, acordes, fraseado, forma, andamentos, estilo e gênero;
– Possibilitam o aprimoramento da expressividade;
– Favorecem o desenvolvimento da técnica instrumental.

Cada pessoa tem uma característica e uma forma diferente de aprender. Observando o que é predominante no aluno, pode-se ajudá-lo a ampliar suas percepções e vivências, a fim de que ele adquira novas capacidades, desenvolva competências que não estão evidenciadas e melhore ainda mais as habilidades que já possui.

Tenho trabalhado com os alunos sob essa perspectiva, relacionando a aquisição dos elementos da linguagem musical e da técnica instrumental às atividades de percepção e de criação. Percebo que, dessa forma, o aprendizado torna-se mais atraente e prazeroso, e uma experiência enriquecedora para o aluno. Em minha Dissertação de Mestrado (UNICAMP, 2016), pude demonstrar os benefícios e a abrangência dos resultados.

Esta experiência, tenho levado aos meus cursos para professores. Além disso, busco dar confiança aos professores em relação às suas próprias capacidades criativas, principalmente àqueles que, como eu, não tiveram essa prática. É gratificante observar grande parte das pessoas, a princípio receosas em improvisar, ao final do curso, mostrando sua alma musical ao piano.

Ao improvisar, é importante se permitir tocar com liberdade, com o foco no som, não nos dedos, sem receios ou julgamentos de certo ou errado. Mesmo que os dedos percorram notas indesejadas, se o instrumentista imprime nelas uma intenção musical, a expressividade emerge.

Como estímulo para a criação, pode-se apresentar variadas ideias, musicais ou extramusicais. Nos meus cursos, também ofereço ferramentas para que os professores possam replicar e expandir as propostas. Muitos têm enviado lindos depoimentos relatando o que realizaram com seus alunos e os resultados obtidos.

Considero que um ensino abrangente, que estimule ouvir, tocar, criar, analisar e que busque aflorar a musicalidade, a audição e a criatividade dos alunos, oferece maiores possibilidades de utilização futura da música e torna o aprendizado mais eficiente e prazeroso. ♦


Laura Longo é educadora musical e pianista. Mestre em Música pela UNICAMP e Pós-Graduada em Pedagogia do Piano. Autora do livro Divertimentos. Ministra palestras e cursos para professores.


05 | Educador Musical