Artigo

Inspirando alunos – sobre a Maratona Suzuki de flauta doce de São Paulo

por Renata Pereira | Abr – Mai 2019

Todos nós, músicos, sabemos da importância de um evento musical em nossas vidas, na nossa formação. Um festival, um encontro, uma maratona de ensaios para a preparação de um concerto ou concurso, enfim… Lembro-me, com clareza, do primeiro festival de música antiga do qual participei, da minha sensação ao tocar com um contínuo de excelente qualidade. Essa experiência, no meu caso, me fez confirmar minha decisão na escolha do instrumento e do repertório em que eu encontrava maior prazer em fazer música. Sem falar de escolha profissional, foi naquele momento que tive a certeza mais íntima de que nunca mais a flauta doce sairia da minha vida.

A motivação é um assunto recorrente em pesquisas sobre educação, e na educação musical não é diferente. Contudo, tenho presenciado, em minha experiência profissional, que a MotivAção só aparece quando somos inspirados por alguém, por alguma situação. Desde que cheguei a essa conclusão, passei a buscar minhas inspirações para continuar meus trabalhos. Seja como flautista solista, seja na música de câmara, seja como professora de flauta doce, todos os anos tenho buscado estar perto de pessoas que me inspiram. Vou a eventos e lugares que me inspiram. Faço música e ouço música que me inspira. Assim, reafirmo minhas ações profissionais e consigo estar inspirada para tornar verdadeiras minhas ações com meus alunos. Dessa maneira, consigo inspirá-los.

Todos os alunos voltaram inspirados para suas casas, assim como os pais e os professores que puderam participar desse evento.

Por essa razão, comecei a organizar eventos de flauta doce desde que iniciei meu trabalho profissional na área em 1998. Assim, organizei um encontro de flauta doce em Joinville/SC, em 2004, cidade em que nasci, me formei em flauta doce e residi até sair para o curso superior. Organizei a primeira edição do ENFLAMA –  Encontro Nacional de Flauta Doce –  em 2007 em São Paulo, e respectivamente as sexta e sétima edições também em São Paulo, nos anos de 2012 e 2013.

Em 2015, fui convidada pela professora de flauta doce Luciana Schmidt –  do Estúdio Flauta e Fole de Londrina no Paraná –  para ministrar master classes para seus alunos. A programação na ocasião foi muito  intensa. Foi um sábado inteiro de aulas individuais e em grupo, terminando no domingo pela manhã. Quando fomos fazer uma avaliação de tudo, nós duas fizemos um comentário quase como “vamos falar desta ‘Maratona’”! O nome e a motivação dos alunos da Luciana ficaram na minha lembrança, e foi então que, em 2016, decidi fazer a 1ª edição da Maratona Suzuki de flauta doce de São Paulo.

Participantes da Maratona Suzuki de flauta doce de São Paulo em frente ao Instituto Biológico, SP.

Por que Maratona Suzuki?

Porque se trata de um evento conciso com programação intensa relacionada à flauta doce.

Qual o objetivo?

Fazer com que os alunos de flauta doce, que estudam pelo Método Suzuki, sejam inspirados para continuar seus estudos do instrumento durante o ano;  para que os pais desses alunos – que, no Método Suzuki, estão envolvidos todo o tempo no processo de educação musical –  saibam da importância desses eventos na formação dos alunos;  e que estes também possam presenciar um evento de música, pois muitos pais nunca estudaram música ou sequer tiveram a experiência de participar de eventos que reúnem tantos estudantes na prática musical.

O que conseguimos fazer nestes eventos?

Escolhemos um repertório que seja comum aos alunos participantes nos diferentes níveis. Durante o evento, os alunos tocam em grupo e em aulas individuais (com atividades diferenciadas) esse mesmo repertório. Selecionamos quais peças iremos compartilhar no recital aberto para a comunidade. Pais e outros professores de flauta doce assistem a todas as aulas. Além disso, temos recitais em que os alunos podem tocar como solistas e atividades de integração nas quais eles podem conhecer colegas de diferentes estados que estudam o mesmo instrumento.

Na primeira edição da Maratona Suzuki de flauta doce de São Paulo, em 2016, tivemos cerca de 25 inscritos, sendo a metade os alunos do Centro Suzuki de Educação Musical de São Paulo. No término do evento, fizemos um piquenique com recital no Parque do Ibirapuera. Na segunda edição do evento em 2017, tivemos 40 inscritos, entre alunos e professores que puderam observar as aulas. O evento de encerramento para a comunidade aconteceu no Parque da Aclimação.

Na edição de 2018, trouxemos dois convidados internacionais: o flautista holandês e chefe de departamento de Música Antiga da University of North Texas –  UNT, Paul Leenhouts, e a flautista americana e Suzuki teacher trainer Mary Halverson Waldo. Além dos convidados internacionais, tivemos o apoio do Instituto Biológico de São Paulo, para que o evento pudesse aceitar mais inscritos, pois o local possui uma estrutura maior do que a do Centro Suzuki. E fizemos o nosso recital aberto no domingo pela manhã na Avenida Paulista, que, além de ser o cartão postal de cidade, aos domingos pela manhã, é um grande palco de manifestações artísticas. Nesta edição, tivemos 75 inscritos, entre alunos de diversas regiões do país (Sul até Roraima) e professores observadores.

É importante ressaltar que a Maratona Suzuki de flauta doce de São Paulo tem sido realizada sem patrocínio. Os alunos, pais e professores participantes estão provendo financeiramente esses eventos.

Esta edição foi um marco em número de participantes e em professores envolvidos, com alunos e professores do Paraná até Roraima, assim como uma professora que veio de Rosário na Argentina.

Esse grande intercâmbio de flauta doce, flautistas e experiências fez com que todos os participantes ficassem motivados e emocionados. Muitos alunos mencionaram que, de todas as coisas mais legais da Maratona de 2018, a melhor delas foi estar com dois professores e excelentes flautistas internacionais, bem como ter tocado flauta doce na Avenida Paulista com todos. Uma inspiração!

Neste ano também, abrimos o evento para flautistas e professores de fora do ambiente do Método Suzuki. Qualquer professor de flauta doce, educador musical que utilize a flauta doce em seus trabalhos ou qualquer flautista profissional, poderia se inscrever para assistir às aulas e participar do evento. Fizemos isso, porque temos percebido a contribuição das capacitações de professores no Método Suzuki para a formação de professores no Brasil. Mesmo os professores que fazem os cursos e que decidem não trabalhar profissionalmente com o método, relatam a modificação de suas posturas e formações profissionais após esses cursos. O que pensamos, então, ao abrir o evento para outros profissionais, foi em como nossa experiência pode contribuir para a experiência profissional de outros flautistas e professores.

Todos os alunos voltaram inspirados para suas casas, assim como  os pais e os professores que puderam participar desse evento. Um de nossos vídeos na Paulista viralizou na internet. Neste momento em que escrevo este artigo, já estou trabalhando com o professor Gustavo de Francisco, que trabalha comigo no Centro Suzuki de Educação Musical em São Paulo, para pensarmos na Maratona de 2019. Já sabemos quem convidaremos para ministrar aulas e teremos muitas novidades em breve.

Para quem é aluno ou professor Suzuki de flauta doce do Brasil, prepare-se! Para quem ama flauta doce como nós, fique ligado para você estar conosco em 2019 e poder observar tudo de perto. Nós amamos flauta doce e continuaremos inspirando alunos a fim de que possamos ter cada vez mais pessoas que descubram o prazer de fazer música com esse instrumento musical de aparência simples, mas  incrivelmente complexo e mágico em sua profundidade. ♦


Renata Pereira é flautista, SAA Teacher Trainer e Doutora em Música pela USP. Professora no Centro Suzuki de Educação Musical de São Paulo e integrante do Quinta Essentia Quarteto.


11 | Educador Musical