Projeto musical

Instituto Piano Brasileiro

Criado e dirigido pelo pesquisador e pianista Alexandre Dias, o Instituto Piano Brasileiro (IPB) possui um dos mais importantes acervos musicais do país. Nesta entrevista, Dias fala sobre esse grandioso projeto de preservação e divulgação de nossa memória musical

por Redação | Abr – Mai 2019

Partituras do acervo do IPB

Educador Musical: O IPB foi fundado em agosto de 2015. Nesses pouco mais de 3 anos, quais os maiores desafios enfrentados por vocês?

Alexandre Dias: O primeiro deles é encontrar maneiras de levar ao público informações e materiais relativos à riquíssima história do piano brasileiro, que ainda se encontra muito difusa. Para isso, temos ampliado as bases de dados em nosso site www.institutopianobrasileiro.com.br, fornecendo fotos raras, listagens de partituras e gravações, verbetes enciclopédicos, linha do tempo e pesquisas diversas. Em nossas redes sociais, estamos constantemente trazendo novidades de nosso acervo e, em nosso canal no Youtube, já conseguimos publicar pelo menos um vídeo por dia, incluindo vídeo-partituras, gravações inéditas e entrevistas com pianistas de diversas formações.

Outro desafio é processar a grande quantidade de acervos que temos recebido de doação, os quais vêm de diversas partes do Brasil. São acervos que pertenciam tanto a grandes personalidades como Guiomar Novaes, Aloysio de Alencar Pinto, Souza Lima, Lúcia Branco e Neusa França, como também a professores e pianistas menos conhecidos. Nós digitalizamos 100% do material que recebemos e mantemos o acervo físico em uma sala especialmente alugada para isso, com climatização a 18ºC e vigilância. Depois, todo o material digitalizado precisa ser processado, catalogado e organizado. Isto é um trabalho de base que consome a maior parte de nossos recursos, mas que sabemos que é muito necessário, devido à carência de fontes primárias na musicologia. Para esse trabalho, conto com a ajuda inestimável do professor Douglas Passoni de Oliveira, de Ponta Grossa.

Por fim, destaco o desafio de se conseguir patrocínio. Atualmente temos funcionado com uma receita advinda da contribuição de cerca de 150 assinantes, através de nossa campanha de financiamento coletivo no site catarse.me/institutopianobrasileiro

A pianista Antonietta Rudge em uma foto autografada em 1926. Acervo de Aloysio de Alencar Pinto, doado ao IPB por Georges Mirault  

Educador Musical: O IPB tem recebido obras e acervos de várias partes do país. Esses materiais chegam em bom estado de conservação, existe um cuidado dos proprietários quanto à preservação, ou ainda há muito negligência com esse tipo de patrimônio?

Alexandre Dias: Em geral, chegam em bom estado. São documentos que ficaram guardados em gavetas, armários, baús, por dezenas de anos. Em geral, o conteúdo está preservado, até mesmo em casos em que o papel já está bastante amarelado. Também há casos de fitas-rolo, gravadas nas décadas de 1950, 1960 e 1970, que costumam preservar com boa qualidade o som. Tem sido uma grande honra receber esses acervos e mantê-los para a posteridade. Muitos desses documentos já estão sendo trabalhados por professores, alunos, pesquisadores acadêmicos e não-acadêmicos de diversas partes do Brasil e do mundo, os quais entram em contato conosco.

Alexandre Dias. Fundador do IPB. (foto: divulgação)

Educador Musical: Poderia citar algumas raridades do acervo do Instituto?

Alexandre Dias: Temos hoje um dos maiores acervos musicais do Brasil, com literalmente dezenas de milhares de documentos que incluem partituras manuscritas, partituras editadas, programas de concerto, cartas, recortes de jornal, fotos originais, catálogos de editoras e gravadoras e muitos outros itens diversos. Uma grande surpresa que tivemos no último ano foi o recebimento do acervo de Guiomar Novaes, cuja história de como foi encontrado pode ser lida aqui.

São 189 cartas originais, 444 fotos, 249 programas de concerto e outros documentos como cartazes, panfletos, críticas, listas de passageiros de navios, roteiros para programas de rádio e TV, agenda de concertos, entre outros. Todo esse material já foi digitalizado e está sendo disponibilizado aos poucos – na Linha do tempo do IPB, por exemplo, já estão disponíveis para download todos os programas de concerto, em suas respectivas datas.

Outro acervo inacreditável é o do professor Aloysio de Alencar Pinto (1911-2007), grande musicólogo, pianista e compositor cearense, que foi amigo de Villa-Lobos, Francisco Mignone e Camargo Guarnieri, por exemplo, tendo vivenciado a música brasileira do século XX como ninguém. Tive o privilégio de conversar muitas vezes com ele por telefone durante seus últimos anos de vida, e, após seu falecimento, seu filho, Georges Mirault, passou a doar ao IPB grandes quantidades de documentos preciosíssimos que, até o momento, já somam 576 programas de concerto, 398 recortes de jornal, 2.369 partituras (incluindo muitos manuscritos autógrafos de diversos compositores), 11 fitas-rolo, 133 fotos e muitos outros documentos.

Outro acervo gigantesco é o do pianista, maestro e compositor João de Souza Lima, doado ao IPB por seu filho Antonio Augusto Souza Lima. São mais de 350 programas de concerto e cerca de 1.000 recortes de jornal, que abrangem um grande período, desde a década de 1910 até a década de 1970.

Valsa (quase popular). Partitura inédita de Fructuoso Vianna. Acervo de Aloysio de Alencar Pinto, doado ao IPB por Georges Mirault

Educador Musical: Os cursos de graduação em piano possuem uma matriz europeia, dedicando pouco espaço para o estudo de obras brasileiras. O IPB pretende fazer um diálogo com os pianistas, de modo que eles possam conhecer e tocar o repertório brasileiro?

Alexandre Dias: Sim, fazemos isso constantemente. Nosso objetivo é construir pontes entre esses dois extremos que conversam pouco entre si: de um lado, há o manancial amazônico da música brasileira; e de outro, pianistas do mais alto nível, mas que não estão acostumados a tocar muitas obras brasileiras além de Villa-Lobos.

Frequentemente recebemos solicitações de pianistas, professores e alunos pedindo sugestões de repertório e também partituras. Estamos preparando um guia de repertório do piano brasileiro, que ajudará muito a preencher lacunas neste sentido.

Um dos últimos recitais da pianista Guiomar Novaes no Auditório São José, em Santos, SP em 12/10/1972.
Acervo de Ney Ávila, encontrado em Piracaia por Fabio Rolfsen e Luiz Carlos Santana
Contracapa do programa de concerto do recital de Guiomar Novaes

Educação Musical: Como pianista e pesquisador, de que modo você analisa o repertório brasileiro para piano? Temos obras que devem fazer parte do cânone do instrumento?

Alexandre Dias: Com certeza. Costumo comparar o piano brasileiro ao piano russo em nível de importância. Temos os nossos Stravinskys, Rachmaninoffs, Shostakovichs, Scriabins, etc, porém aqui nossos compositores ainda não foram devidamente descobertos por nossos pianistas. Em nosso canal do Youtube, mantemos uma série chamada Por dentro das partituras, em que disponibilizamos diariamente obras do repertório brasileiro, em gravações sincronizadas com as respectivas partituras. São músicas que vão desde o início do século XIX até a música que é feita hoje, dos mais variados estilos e dificuldades, desde miniaturas até concertos e sonatas. O objetivo é mostrar a pluralidade e riqueza de nossa música, incluindo o piano popular. Para este trabalho, precisamos recorrer a duas buscas difíceis: gravações e partituras desse repertório raro. Foi apenas com o trabalho persistente de digitalização de acervos que isso se tornou possível. É com satisfação que tenho visto, aos poucos, os pianistas se interessarem por essas obras.

Educador Musical: O IPB tem ou terá projetos que contemplam a educação musical?

Alexandre Dias: No momento, nosso trabalho tem sido focado na produção e divulgação de conteúdo inédito online e muita pesquisa. Em nossa sede física, uma sala na Asa Norte em Brasília, iremos começar em breve a fazer audições comentadas e temos planos de realizar cursos presenciais e online.

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