Educador responde

Música & Neurociência

Viviane Louro responde 4 perguntas sobre a colaboração da neurociência para a música

por Viviane Louro | Abr – Mai 2019

A educadora musical e neurocientista Viviane Louro. Foto: divulgação

O que é neurociência e em que áreas ela pode ser aplicada?

A neurociência estuda o cérebro em relação a aprendizado, percepção do mundo, comportamento e patologias. Ela pode ser aplicada em qualquer área e, em cada uma delas, terá o foco de compreender o cérebro em relação àquele assunto específico. Por exemplo, o neuromarketing vai tentar compreender as relações neurológicas do consumo, isso ajudará a compreender que tipo de produto se sairá melhor no mercado. A neuroarquitetura vai estudar como as estruturas físicas e os espaços em que vivemos afetam o desenvolvimento do cérebro.  A neuroantropologia, por sua vez, vai estudar o desenvolvimento do cérebro das espécies, unido à arqueologia. A neuropsicologia estuda os fenômenos psíquicos e o aprendizado do ponto de vista neurológico, e assim por diante.

Como a neurociência pode contribuir com o ensino/aprendizagem musical?

A neurociência, através de pesquisas e exames, já confirmou que a música é o fazer humano mais complexo que existe, pois, quando fazemos música, utilizamos praticamente todo o nosso aparato neurológico. O cérebro dos músicos é completamente diferente das pessoas que não estudam música. Há áreas muito mais desenvolvidas do ponto de vista neurológico, o que promove um aprendizado diferenciado. Não é à toa que todo mundo afirma que música faz bem para o corpo e a alma e que quem estuda música aprende melhor outras coisas. Esse conhecimento popular hoje pode ser confirmado pela neurociência, que praticamente já mapeou como funciona boa parte do fenômeno musical no cérebro.

Portanto, compreender como o cérebro funciona em relação ao aprendizado musical poderá ajudar a potencializar o próprio aprendizado. Quando compreendemos certos mecanismos neurológicos, podemos pensar em estratégias pedagógicas ou mesmo do estudo do instrumento musical, os quais podem facilitar o aprendizado. Por exemplo, ao compreender como funciona a memória, podemos organizar o estudo diário do instrumento de forma que a memória seja potencializada, ao passo que, se não compreendemos isso, podemos até mesmo estudar de um jeito que prejudique a memória. Por isso, tantas pessoas estudam, estudam e estudam horas a fio e não conseguem aprender. Quando entendemos a importância do emocional no aprendizado e na memória, mudamos completamente a visão do ensinar tecnicista, que ainda é comum hoje em dia. Se entendemos como funciona o mecanismo da audição, podemos criar exercícios de percepção musical baseado no desenvolvimento neurológico da audição e, com isso, potencializar a percepção dos alunos. Além disso, com o aparato da neurociência, conseguimos lidar melhor com os problemas de aprendizado musical, tais como dificuldade de coordenação motora ao instrumento, dificuldade de leitura musical ou de memorização das músicas, medo de tocar em público, entre outros, pois, para cada um desses, a neurociência tem uma explicação e uma maneira de diminuir, compreender ou mesmo sanar o problema. Por último, o conhecimento da neurociência nos ajuda a incluir no fazer musical alunos com transtornos ou deficiências mais graves, como pessoas com autismo, síndrome de Down, paralisia cerebral, dentre outros, uma vez que nos mune de informações de como o cérebro dessas pessoas funcionam; podemos, assim, preparar uma aula mais adequada à capacidade de todos.

A neurociência estuda o cérebro em relação a aprendizado, percepção do mundo, comportamento e patologias.

Como é a área de neurociência e música no Brasil?

A neurociência tem ganhado espaço no Brasil; na área de farmacologia ou reabilitação, é muito forte já. Nas áreas de humanas, vem avançando dentro da psicologia, filosofia, história e principalmente educação (neuroeducação).

Na música, ela está engatinhando ainda, ao contrário de muitos países que já possuem centros de pesquisas em música e neurociência. No Brasil, temos pouquíssimos músicos formados em neurociência, mas isso vem crescendo. Na Universidade Federal de Pernambuco, coordeno, juntamente com o professor Antonio Nigro (pianista e neurocientista), uma pós-graduação em Neurociências, Música e Inclusão. Na Universidade Federal do ABC, temos vários trabalhos com a professora Patrícia Vanzella e, na UNIFESP, temos o renomado neurocientista e músico Mauro Muskat, que também tem pesquisas e publicações na área. Há ainda alguns pequenos cursos e pós-graduações a distância que começaram a flertar com a neurociência. Apesar de termos essas iniciativas, a neurociência ainda está longe de adentrar o universo da música com propriedade aqui no Brasil, mas, aos poucos, vamos galgando espaço.

Qual a contribuição da neurociência na formação do educador musical?

Se as pessoas soubessem o quanto a neurociência é fundamental para a compreensão da vida e dos processos de aprendizagem, todos os cursos de música teriam essa disciplina. A neurociência contribui para que os professores possam ler melhor os seus alunos e, com isso, pensarem a melhor forma de atuar pedagógica ou musicalmente com eles. Por exemplo, se há um aluno fazendo uma birra muito forte em sala de aula, a neurociência pode nos ensinar qual mecanismo neurológico está por trás dessa birra e, dependendo do nível do “surto” da criança, poderemos utilizar a estratégia A ou B para acalmá-la. Da mesma forma, se um aluno tem dificuldade de coordenar os movimentos para tocar um instrumento, a neurociência pode nos ensinar a entender que tipo de problema é esse, se é algo nos comandos centrais do cérebro ou na execução do movimento e, com esse conhecimento, podemos pensar o melhor tipo de atividade ou exercício para resolver essa questão. Ou ainda, se tenho um aluno com muita dificuldade em compreender comandos verbais, poderemos, pela neurociência, criar estratégias para que outras áreas do cérebro se apropriem ou contribuam com o aprendizado verbal, a isso chamamos neuroplasticidade. Enfim, a neurociência com certeza será em breve a maior ferramenta para todas as áreas, e espero que, muito em breve, a educação musical compreenda a importância desse conhecimento e insira essa disciplina massivamente na formação do professor de música. ♦


Viviane Louro é professora na UFPE, Doutora em Neurociências pela UNIFESP, Mestre em música pela UNESP e Bacharel em piano pela FMU-FIAM-FAAM. Autora de Música e Inclusão – múltiplos olhares (2016).


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