Artigo

A Arte da Prática Pianística: Leitura, Escuta, Memorização e Concentração

por Aline Boyd | Jun – Jul 2019

Já parou para se perguntar: “O que farei com a prática de hoje?”, “Qual é o meu objetivo?”? Parece trivial, mas tais questões deveriam nortear o ensino e o aprendizado de todos e quaisquer campos da Música. Nesse sentido, a Arte da Prática Pianística se dá nos planos individual e interpessoal. Logo, a prática se insere, nesse contexto, como um meio dinâmico para a erudição.

A palavra prática pode estar relacionada a uma variedade de imagens e sentimentos. Para uns, a ideia da prática instrumental está relacionada a horas de prática, confinamento e exercícios técnicos. Para outros, configura uma atividade de expressão. Para além das experiências e perspectivas pessoais, vejo a prática instrumental como uma atividade desafiadora, pois, além de envolver nossas capacidades física, mental e emocional, requer um planejamento abrangente, com objetivos – a curto, médio e longo prazos – claros.

Pela minha própria experiência como pianista, afirmo que meu olhar, abordagem e prática pianística têm sofrido mudanças significativas influenciadas pela minha vivência nos âmbitos profissional e pessoal. Certamente, o aprendizado advindo da convivência com mentores e colegas de profissão enriquece esse processo e enseja o crescimento de músicos de todos os níveis.

Madeline Bruser, autora do livro “The Art of Practicing – A guide to make music from the heart”, aborda questões de extrema relevância relacionadas à  arte da prática. Bruser afirma que cada peça musical representa um mundo novo a ser descoberto, com desafios técnicos inerentes à concepção e ao estilo da obra.  Isso é interessante uma vez que temos a tendência de “adormecer” nossa escuta no momento em que iniciamos a prática. Ficamos tão envolvidos em produzir som que corremos o risco de abandonar a qualidade, indispensável para a criação de um som apreciável. Cabe ressaltar que o excesso de tensão impedirá o flow (fluxo) da vibração musical no corpo e, assim, limitará a responsabilidade de produzir um som satisfatório. É certo que o valor do exercício depende do estado mental. De maneira geral, se não achamos interessante, não é útil.

Vejo a prática instrumental como uma atividade desafiadora, pois, além de envolver nossas capacidades física, mental e emocional, requer um planejamento abrangente, com objetivos – a curto, médio e longo prazos – claros.

Um dos piores hábitos na prática do instrumento é tocar uma peça acima do tempo para o qual estamos preparados. O ideal é dominar e aproveitar cada etapa da prática, focando nos elementos, e trabalhá-los gradualmente. Pequenos passos geram resultados satisfatórios. Corpo, mente, coração e percepção são aliados nesse processo. Podemos citar, por exemplo, o pianista e compositor Albert Chasins que, ao ouvir a vagarosa prática pianística do célebre Rachmaninoff, foi capaz de identificar que esta se referia a um dos estudos de Chopin. Com um pouco de sensibilidade, podemos idealizar Chasins ouvindo e sentindo a prática de Rachmaninoff que, naquele dia, tocou uma barra de compasso a cada 20 segundos.

Lembro-me dos benefícios que tive quando comecei a praticar um novo repertório “fora do piano”. Esse hábito aprimorou drasticamente minha eficiência na prática do instrumento, pois me fez questionar e buscar certa sonoridade em detrimento de uma performance satisfatória. Ainda, para que tenhamos objetivos bem definidos na nossa prática cotidiana, devemos absorver a concepção geral da peça. Por isso, antes mesmo de iniciar a leitura de Partita número 2, de Johan Sebastian Bach (1685-1750), procurei escutar minuciosamente outras partitas, bem como diversos Prelúdios e Fugas, Suítes Francesas e Inglesas, Concerto Italiano e Concertos de Brandemburgo, com a finalidade de assimilar profunda e intensamente o estilo, o toque e o caráter da peça alvo do meu estudo. Ademais, ouvi alguns trabalhos orquestrais de Bach a fim de adquirir mais conhecimento acerca da linguagem musical do compositor e posteriormente compará-la com suas obras destinadas a instrumentos de teclas.

A segunda etapa foi verificar os desafios técnicos e as ferramentas necessárias para superá-los. A habilidade técnica de tocar uma peça (pianism) está relacionada às técnicas e aos mecanismos que o intérprete precisa dominar para tocar um determinado repertório com clareza e precisão. A técnica instrumental saudável não contraria os princípios de uma postura saudável ou de movimentos. Tensões e técnicas ineficientes são, muitas vezes, consequências de nossas atitudes em relação a nós mesmos e à nossa prática. Portanto, a autoavaliação é imprescindível para a maturidade musical.

A musicalidade está associada ao treinamento como músico e não como alguém que, simplesmente, toca o instrumento. Podemos ser musicais sem dispor, necessariamente, de um instrumento; o instrumento por si só é uma máquina e só produzirá música se quem o tocar souber como “fazer música. E fazer música exige Arte. A Arte (Artistry) é primordial e refere-se a nossa habilidade de comunicarmos musicalmente a música em si. O objetivo principal, a meu ver, é a conexão profunda do intérprete com o coração e a mente do compositor, ou seja, o intérprete é um veículo nesse processo e não poderá jamais “oferecer” música sem, antes, tê-la recebido.

Em vista disso, ainda podemos inferir que a prática adequada e efetiva evita lapsos de memória durante a performance musical. O esquecimento é uma das principais causas de ansiedade e frustração tanto em aspirantes a músicos como em profissionais experientes. Finalmente, é importante salientar que, embora a visualização da partitura e a execução mental da peça sejam habilidades singulares, elas são tangíveis; para alcançarmos o domínio integral e duradouro da peça, a prática tem que ser organizada de forma que a capacidade de memorização seja retida e a obra musical perdure “na ponta dos dedos”. Como? Respondendo às questões iniciais.

08 | Educador Musical