Entrevista

Pianista Cheisa Goulart cria projeto inovador de educação musical

Nesta entrevista, a educadora musical conta como o projeto PianoForte está mudando a realidade de jovens que não poderiam pagar por aulas de música

por Redação | Jun – Jul 2019

A educadora musical e pianista Cheisa Goulart (foto: divulgação)

Educador Musical: Quais projetos você está desenvolvendo no momento?

Através da minha escola de música, Piano Studio Cheisa Goulart, atuo com três projetos diferentes:

Piano da Felicidade: consiste em uma proposta inspirada no projeto mundial conhecido como “Play me, I’m yours”. Após a aquisição de um piano semi-novo que pertenceu a uma ex-professora da cidade de Bagé, realizamos o restauro com uma empresa de marcenaria chamada Dom Martelo, e. logo após, esse instrumento foi grafitado pelo artista local Hyra Farias. Em estações como o verão e a primavera, o piano é disponibilizado em locais públicos, dando acesso livre à população. Já no inverno e no outono, o instrumento fica no hall de entrada do Studio e a qualquer momento as pessoas podem experimentá-lo e usá-lo.

Musicarte: Durante um período de seis dias corridos, com atividades nos turnos manhã, tarde e noite, realizamos atividades como palestras, recitais, masterclasses e oficinas que contemplem a maior diversidade de atividades artísticas: música, teatro, cinema, fotografia, dança, artes plásticas e literárias buscando um diálogo intenso entre essas vertentes e beneficiando todas as camadas sociais gratuitamente. Esse evento reúne artistas locais e simpatizantes, além de profissionais renomados do nosso estado (RS).

PianoForte: É um projeto socioeducativo musical, iniciado em maio de 2017, por meio da parceria entre a Cheisa Goulart e o casal Maria Luisa Avello e Álvaro Lahorgue, o qual consiste em atender crianças e adolescentes de baixa renda devidamente matriculados em escolas públicas, para obterem aulas de piano em grupo, gratuitamente, por um período inicial de dois anos. Essas aulas são custeadas através do apadrinhamento de pessoas físicas e jurídicas da comunidade. Os resultados alcançados nesses dois anos de trabalho produziram um impacto sociocultural local muito significativo. Devido ao ineditismo dessa iniciativa (partindo de uma escola de música privada), outras escolas do país têm nos procurado para obter informações a fim de fazerem parte dessa ação.

Educador Musical: Como é a forma de seleção de alunos e professores para ingressar no projeto PianoForte?

Alunos: Os alunos são selecionados através da indicação das equipes diretivas de escolas públicas (municipais, estaduais e federais), bolsistas de escolas particulares da cidade ou pelo cadastramento virtual (via e-mail). A cada vaga disponibilizada, é feito um levantamento no cadastro de reserva e o contato com as equipes diretivas; em seguida, é realizada uma entrevista com as famílias dos alunos selecionados para averiguar o enquadramento no perfil do projeto.

Professores: Os professores que atualmente trabalham no Studio em Bagé possuem graduação em música (licenciatura ou bacharelado) e treinamento para atuarem com ensino coletivo de piano. Já os professores que atuam fora da cidade ou do estado são selecionados primeiramente por meio de entrevistas virtuais. Solicitamos que estes tenham formação acadêmica na área da música e treinamento específico para atuação com piano em grupo. Logo após esse diálogo, agendamos uma data para receber o profissional na minha escola em Bagé e, durante dois dias, ele recebe treinamento para atuar no projeto, tanto no setor administrativo pedagógico quanto no administrativo financeiro.

Primeiros integrantes do projeto a concluírem a etapa incial do PianoForte. Foto: Helen Medeiros

Educador Musical: Vocês estão expandindo o projeto para outras cidades?

Sim. Atualmente, além do trabalho desenvolvido em Bagé, temos no país cinco escolas de música cadastradas ao projeto: Escola de Música O Cravo Bem Temperado, que tem como proprietária a empresária Daiane Baron, na cidade de Jaciara (MT); Children’s Corner-Piano Studio, de Maristela Marques, em Jundiaí (SP); Instituto Glauci Melo, de Glauci Melo, em Engenheiro Coelho (SP); Bianca Viana Aulas de Piano, de Bianca Viana, em Ribeirão Preto (SP); e Studio de Música Tocando no Ritmo, de Adanes Souza, em Rio Branco (AC).

Educador Musical: Com base em sua experiência à frente de vários projetos, você considera que, no mercado de trabalho atual, é importante o educador musical desenvolver a capacidade de empreender?

Não vejo outra alternativa. Devido às dimensões que o nosso país possui e às diferenças socioeconômicas de cada região, muitas vezes é necessário que o educador tenha um olhar apurado e perspicaz para criar no seu entorno um ambiente cativante e indispensável para a comunidade em que esteja inserido. Sob essa perspectiva, é possível ver que, quanto maior for a diversidade de ações desenvolvidas, maiores são as chances de mantermos uma empresa ou ação. Não basta apenas oferecermos aulas, é necessário promovermos eventos e cursos de aperfeiçoamento, bem como desenvolver parcerias com diferentes segmentos. 

Educador Musical: Você percebe um maior interesse dos educadores musicais em criar e desenvolver projetos que vão além da sala de aula?

Sim. Aqui no Rio Grande do Sul, venho percebendo um aumento de escolas de música com um perfil bem interessante. Jovens que assim como eu investiram na formação acadêmica na área da música continuam se aperfeiçoando e promovem atividades bem dinâmicas nesse setor. De um modo geral, tenho acompanhado muitos trabalhos desenvolvidos virtualmente, como o caso do treinamento on line para atuação com piano em grupo da Ms. Naira Poloni, além de inúmeras ofertas de aulas de instrumento, harmonia, arranjo, entre outros.

Educador Musical: Gostaria que deixasse uma mensagem para os educadores musicais que também sonham em realizar um projeto como o PianoForte.

Atuar com projetos sociais requer, além do conhecimento técnico musical e pedagógico, um conjunto de percepções a respeito do ser humano.

Desenvolver um projeto social foi transformador para a minha vida pessoal e profissional, e foi através dessa atuação que ampliei minha percepção a respeito do ensino-aprendizagem musical. Caso seja do interesse de outras pessoas se unirem à nossa rede de atuação com o projeto, estou à disposição para o esclarecimento de como ele funciona. Tem sido muito gratificante usar a profissão que tanto amo para ajudar outras pessoas.


Cheisa Goulart é graduada em Piano pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e pós graduada em Atendimento Educacional especializado. Cursa pós graduação em Músicas do Século XX e XXI (UFSM) com ênfase em pedagogia da performance musical. É criadora do projeto PianoForte e diretora do Piano Studio Cheisa Goulart.


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