Capa

Jogos Musicais

Da musicalização infantil ao ensino para adultos, conheça dez razões para incluir esse recurso nas aulas de música

por Mirka da Pieva | Jun – Jul 2019

Desde que comecei a trabalhar como professora de piano há mais de 20 anos, percebi que meu papel é abrangente. A tarefa certamente não se resume a fazer o aluno tocar um instrumento, mas a ensinar música em primeiro lugar. Posso afirmar que realizar esse feito de “ensinar música musicalmente”, parafraseando Swanwick, tem sido o meu projeto de vida. Todas as reflexões, todas as atividades propostas, todo o repertório, todo o plano de aula é motivado por essa missão! Isso já tornaria o trabalho árduo o suficiente, mas eis que vem a era digital e coloca uma carga extra de dificuldade sobre os ombros de qualquer educador. Por favor, não me entenda mal. Eu adoro o que faço, porém há tantas coisas para ocupar a vida das pessoas hoje em dia, e tudo é tão fácil e ao alcance de um clique, que se dedicar a estudar música e a aprender a tocar um instrumento parece algo quase sem sentido, especialmente para uma geração que tem tudo pronto e que não sabe esperar. Nesse contexto, vejo que é preciso, mais do que nunca, ensinar música, mas de forma cativante, de modo que motive e mantenha os alunos interessados e engajados. Uma das soluções que encontrei para alcançar esse objetivo foi incluir atividades lúdicas na minha rotina de aula. E foi assim que comecei a usar jogos para ensinar música.

Por que usar jogos para ensinar música?

Num primeiro momento, meu único intuito era motivar os alunos. Entretanto, à medida que fui incluindo esse tipo de atividade na minha rotina de ensino, observei que os benefícios vão muito além do simples ato de engajar ou entreter. Gostaria de citar aqui 10 razões para incluir jogos nas aulas de música:

1 Reforçar o aprendizado

Jogar pode ser a atividade ideal para reforçar um conteúdo aprendido em aula. Para que isso aconteça, eu sempre me certifico de que, no meu planejamento, os jogos usados estejam perfeitamente coordenados com o conceito musical apresentado no repertório. Então, se a música tocada pelo aluno é um estudo que trabalhe inversões de acordes, por exemplo, os jogos escolhidos para aquela aula serão sobre o mesmo assunto.

2 Dar autonomia ao aluno

Os jogos, quando usados como um recurso estrutural no ensino de música, contribuem muito para o processo de autonomia do aluno. Ao reforçar os conteúdos através de jogos, ele se apropria dos conceitos aprendidos e torna-se gradativamente menos dependente do professor. Além disso, diferente de uma aula tradicional, na qual o aluno recebe o conteúdo de forma expositiva, ao jogar, ele torna-se participante ativo do processo de aprendizagem.

3 Repetir com prazer

O aprendizado de um instrumento musical demanda uma enorme quantidade de repetição, o que pode ser um processo muito tedioso e enfadonho, especialmente para as crianças, que ainda não desenvolveram a motivação intrínseca. O jogo, por si só, sendo uma atividade que promove a diversão, vem como uma ótima solução para essa questão, tornando prazeroso o ato de ter que repetir, ou, nesse caso, jogar muitas vezes.

4 Identificar lacunas 

Para professores que, como eu, trabalham com curso livre, sem um sistema de provas ou testes para nivelar o aluno, o jogo pode servir como um instrumento de avaliação para revelar possíveis lacunas no aprendizado. Além disso, ao tocar uma música, a falta de compreensão de alguns elementos da partitura pode ficar mascarada, especialmente se a melodia é familiar, ou quando aprendida em parte de ouvido ou por imitação. Nesses casos, cabe ao professor escolher jogos que revisem os conteúdos trabalhados no seu programa de ensino e no repertório do aluno e usá-los de forma regular para assim avaliar pontos a serem reforçados em aula.

5 Introduzir novos conceitos

Os jogos também podem ser uma excelente maneira de apresentar um conceito novo.  Introduzir um elemento musical pela primeira vez através de um jogo pode ser uma opção criativa de chamar a atenção e propor diferentes formas de o aluno explorar o que está sendo ensinado.

6 Diminuir pressões e dar espaço para o erro

Podemos supor que os jogos sejam mais adequados para crianças, mas alunos de outras faixas etárias também podem se beneficiar desse recurso pedagógico. Os adultos, por exemplo, costumam ter um senso crítico muito acentuado sobre seu desenvolvimento. Além disso, errar não é visto como algo positivo no ensino de um instrumento musical. O jogo tem a função, nesse caso, de retirar, em parte, a pressão e a cobrança, trazendo maior leveza ao ambiente e dando espaço para a aceitação do erro como parte inerente do processo de aprendizagem.

7 Trazer mais interação

Para uma geração que passa muito tempo na frente das telas, propor um jogo entre professor e aluno ou entre alunos pode ser uma excelente oportunidade de interação. 

8 Isolar elementos

A partitura apresenta inúmeros elementos a serem decodificados, o que para um aluno iniciante pode representar um grande desafio. Para diluir a complexidade da leitura, o professor pode isolar algum elemento que apresente maior dificuldade para o aluno e trabalhá-lo num jogo. 

9 Movimentar as aulas 

Os alunos em idade escolar costumam passar grande parte do dia sentados em sala de aula. Os jogos, especialmente os de movimento, ajudam a “quebrar” essa rotina. Alternar as atividades usando jogos pode ser muito benéfico para manter o envolvimento e ajudar na concentração e no foco no momento de voltar para o instrumento.

10 Tornar a tarefa divertida e envolver a família

Meus alunos levam jogos para casa. Isso faz parte do estudo musical da semana. Eles são incentivados a usarem esses materiais com o pai ou a mãe, o que ajuda muito no envolvimento da família no processo de aprendizagem. Com muita frequência, recebo mensagens de pais contando como foi divertido o momento de jogar com seus filhos. Eu penso que proporcionar essas oportunidades de aprendizado e convivência familiar é uma das maiores alegrias que podemos ter como educadores.

Quando jogar?

Os jogos são parte estrutural na minha rotina de ensino, por essa razão estão intencionalmente presentes em todas as aulas. Abaixo segue um quadro com uma sequência de atividades que criei há alguns anos e que sigo no meu estúdio. Nele incluo as expertises que considero importantes para um desenvolvimento musical mais completo dos alunos, já divididas em blocos de tempo para 1 hora de aula.

Quadro com uma sequência de atividades

Obviamente, no dia a dia, as coisas não precisam fluir de forma tão rígida e às vezes me permito modificar o tempo de duração de cada bloco ou a ordem das atividades. É possível, por exemplo, que eu comece a aula fazendo um jogo e termine com o repertório, desde que essa troca sirva ao propósito de beneficiar o aprendizado e as necessidades do aluno naquele momento.

Que tipos de jogos usar?

Classifico aqui três tipos principais de jogos que uso com meus alunos, de acordo com a proposta e os recursos utilizados, citando também algumas referências.

Jogos de Movimento

Como o próprio nome já diz, tem por objetivo usar o movimento corporal para a compreensão de conceitos musicais. O exemplo máximo vem da rítmica Dalcroze, do qual posso citar os excelentes cursos ministrados pelo professor Iramar Rodrigues. Há outras dezenas de educadores que também despontam como referência no trabalho de jogos e brincadeiras lúdicas que envolvam o movimento. A lista poderia ocupar grande parte desse artigo, por essa razão cito apenas alguns como: Uirá Kulmahnn, Estêvão Marques, Lucas Ciavatta, Thiago Di Luca, Marcus Vieira e a professora Viviane Beineke, autora do excelente livro Lenga la Lenga (Jogos de Mãos e Copos)

Jogos de Mesa

Nesse tipo, o aluno trabalha conceitos musicais através dos chamados jogos de tabuleiro e cartas, também conhecidos como  flashcards. Há algumas lojas do segmento atuando no mercado as quais produzem materiais de ótima qualidade, como a Menestrel e a BrinqToc, além de professores de música autônomos, que, como eu, se aventuram na tarefa de produzir sua própria linha de jogos. Cito aqui as educadoras Leila Sugahara, Marcella Pontes e Adriana Moraes, do blog PianoLar

Jogos Eletrônicos

Esses são mais conhecidos, hoje, como Apps, ou aplicativos para tablets ou celulares, disponíveis tanto para a plataforma IOS quanto para Android. Esse segmento vem crescendo muito nos últimos anos graças ao desenvolvimento tecnológico e, aos poucos, tem conquistado educadores e principalmente os alunos, já tão familiarizados com os jogos eletrônicos. Na primeira edição da Revista Educador Musical, a professora de piano estadunidense Leila Viss, autora do livro The Ipad Piano teacher, citou os 5 apps que mais usa com seus alunos. Vale a pena conferir essa lista e testar os jogos sugeridos por ela.

Mas todos esses jogos precisam ser de competição?

Não. Existem os jogos colaborativos, em que o aluno e o professor, ou um grupo de alunos trabalham em conjunto para vencer um desafio. No primeiro Seminário Internacional de Aprendizagem Musical Através de Jogos (Lear Music Through Play – LMTP), realizado na Universidade de Laval, em Quebec, no Canadá, em abril de 2019, professores e game designers destacaram muitos pontos positivos dessa abordagem, como maior interação em sala de aula, participação ativa dos alunos no aprendizado e maior criatividade na criação de estratégias para resolução de problemas. Vendo que essas habilidades podem ser aplicadas no estudo do repertório e num melhor desempenho nas aulas, tenho procurado fazer adaptações nos jogos.

Por exemplo, um jogo de tabuleiro com cartas pode ser usado em sua forma tradicional de “quem chegar primeiro no final ganha”, ou pode ter as regras ajustadas de forma que o objetivo ainda seja chegar até o final, mas passar por todos os desafios respondendo juntos às perguntas do conteúdo estudado. Faço um esforço deliberado para que meus alunos tenham essa experiência, mesmo que, numa aula de piano em formato individual, a “equipe” seja composta por apenas duas pessoas: eu e ele!  Obviamente que a ideia, ao trabalhar em conjunto com o aluno, não é a de fornecer as respostas. Meu papel nesse caso é o de dar suporte e estimular o aluno para que tome a liderança e assuma o papel de protagonista do seu próprio aprendizado!

Jogo de tabuleiro

Agora, se depois dessas experiências, relatos e exemplos, você ainda não estiver convencido de que incluir jogos nas aulas pode de fato contribuir para o aprendizado musical, eu tenho um último apelo. Tente fazer um pouquinho diferente. Use os elementos dos jogos para trabalhar o repertório, por exemplo. Estou te convidando a gamificar sua maneira de ensinar. Na primeira edição da Revista Educador Musical, escrevi um artigo inteirinho explicando o que isso significa.

E para você que já usa jogos nas aulas, deixo o meu incentivo de que siga adiante. Leia, estude, aprenda, crie seus próprios jogos ou peça para os alunos. Por que não? Depois compartilhe os resultados com outros colegas e, se tiver um tempinho, envie para mim também. Quem sabe a gente não se encontre por aí para jogarmos juntos também?


Mirka da Pieva é educadora musical e pianista. Mestre em Práticas Interpretativas/Piano pela UFRGS e especialista em Pedagogia do Piano. Autora da série de jogos musicais Mirka Brinca.


04 | Educador Musical