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Ontem acadêmico, hoje professor de música! Como se preparar para o mercado de trabalho?

por Mauren Frey | Jun – Jul 2019

Nos dias de hoje, é bastante comum encontrar graduandos em música preocupados com sua futura atuação profissional. É possível atuar como músico de orquestra, de bandas, ser recitalista solo e correpetidor. Pode-se também atuar como produtor de trilhas sonoras para filmes, games e aplicativos. Porém, o que se tem observado é que, seja entre bacharelandos ou licenciandos, a primeira experiência no mercado de trabalho em música quase sempre é lecionando um instrumento. Essa prática é tão comum que pesquisas acadêmicas têm se dedicado a entender como se constrói a trajetória de formação do professor de instrumento e quais são os saberes docentes envolvidos.

Apesar disso, é inegável o descompasso entre formação e mercado de trabalho, no que tange à maioria dos cursos de música. Os bacharéis recebem um treinamento prioritariamente voltado à prática instrumental enquanto os licenciandos têm o foco na atuação da escola básica em detrimento do preparo técnico-instrumental. Isso ainda se soma às dificuldades enfrentadas pelos professores de piano atuantes, tais como a ausência de regulamentação da profissão, a escassez de materiais didáticos atualizados em português, bem como o conhecimento muitas vezes deficitário sobre técnicas de ensino e metodologias inovadoras. Esse panorama impacta, muitas vezes, a própria motivação do jovem em cursar Música. “Depois de formado, como vou me sustentar através da minha atividade profissional?” é uma dúvida frequente. 

Com foco nessa preocupação eminente dos nossos alunos, na UFPel, temos procurado desenvolver ações que complementem o treinamento profissional dos nossos jovens acadêmicos. O caminho escolhido foi disponibilizar um espaço para que acadêmicos possam experimentar a docência em música através do ensino do piano. O projeto de Extensão é chamado Oficina de Música: Piano. Vinculado ao curso de Licenciatura em Música, existe desde 2004, e, em 2017, quando assumi a coordenação, modificamos algumas estratégias pedagógicas, para melhor atender à demanda atual do ensino do piano na atualidade.

Esta proposta atende de modo mais amplo o ponto de vista de que a música pode ser ensinada através do piano e defende um ensino musical democrático, no sentido de que todas as pessoas interessadas podem aprender música. Assim, o acadêmico é apresentado a um espaço de atuação mais democrático que leva em conta que todos os interessados, portanto alunos de piano do projeto, possam ter acesso ao conhecimento da linguagem musical, considerando-se que a maioria não será músico profissional. É uma experiência bastante próxima do que acontece no mercado de trabalho, principalmente nas escolas especializadas de música.

É inegável o descompasso entre formação e mercado de trabalho, no que tange à maioria dos cursos de música.

A estratégia de “treinamento” funciona basicamente como um “laboratório” e de maneira bastante descomplicada. Acontecem aulas durante o semestre e apresentações regulares no final de cada um. Também são desenvolvidas atividades extras como saraus e encontros para que os participantes das atividades possam compartilhar as suas experiências musicais. O mais importante disso tudo é que o foco do trabalho do projeto está fundamentalmente no acadêmico. Os bastidores dessas atividades todas são protagonizados pelos alunos de graduação. De outro modo, provavelmente eles entrariam no mercado de trabalho muitas vezes sem nem saber que tantas ações são mobilizadas para que as atividades de ensino e aprendizagem do instrumento aconteçam e, ao se depararem com a realidade, provavelmente passariam por situações desconfortáveis mediante seus alunos. Por exemplo, como coordenadora, é bastante comum ouvir expressões do tipo: “Poxa, professora, eu nem sabia que dava tanto trabalho elaborar um programa de recital”, ou então, “É muito chato quando meu aluno não vem, ou não se prepara para a aula”. Nessas situações reais de relações interpessoais, os acadêmicos podem refletir sobre quais seriam de fato as suas atitudes frente a imprevistos, para que, mesmo com eles, o aluno não se desmotive, abandone as aulas e, consequentemente, gere ônus para o orçamento do professor particular que contava com aquela mensalidade.

Com ações como a da Oficina de Piano, as Diretrizes para a Extensão na Educação Superior, estabelecidas pela Resolução n.7, de 18 de dezembro de 2018, têm sido reforçadas. Em contínua renovação e readequação, esse tipo de ação extensionista vem auxiliando e ampliando possibilidades de licenciandos e bacharelandos se inserirem no mercado de trabalho, capacitando-os a trabalhar em novos diversos espaços. Além disso, ajuda os licenciandos a perceberem e buscarem qualificação técnico-instrumental e os bacharéis a desenvolverem recursos didáticos mais sólidos e bem fundamentados.

Esta é nossa estratégia. E você, como tem se preparado para encarar o mercado de trabalho sem sustos ou descompassos?


Mauren Frey é Pianista e Professora Adjunta do Curso de Música – Modalidade Licenciatura na Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e Doutora em Música – Práticas Interpretativas: Piano pela UFRGS. Coordenadora do Projeto de Extensão Oficina de Música: Piano, que oferece aulas de música para a comunidade de Pelotas.


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