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Ouvido absoluto

O neurocientista Raphael Bender explica em que consiste essa habilidade que fascina os músicos

por Raphael Bender | Ago – Set 2019

O músico, professor e neurocientista Raphael Bender (foto: divulgação)

Educador Musical: Tecnicamente, como o ouvido absoluto é definido?

Raphael Bender: O ouvido absoluto é a habilidade de identificar e nomear um tom musical sem uma referência externa. O termo Ouvido Absoluto causa confusão, pois é comum que pessoas entendam a palavra “absoluto” no seu sentido de algo completo, como se a pessoa com a habilidade pudesse identificar, com precisão, a altura de qualquer som. Logo, é importante frisar que o Ouvido Absoluto é a habilidade de perceber a frequência dominante de um tom musical, sem a necessidade de fazer comparações com outros tons armazenados na memória.  Em outras palavras, basta que a pessoa que tem a habilidade escute um determinado som para que ele consiga dizer qual é a nota musical. Em alguns casos, é possível inclusive que o portador da habilidade identifique um som não musical, como o ruído de um condicionador de ar, o som de um motor de carro ou de uma sirene.

Educador Musical: Existe mais de um tipo de ouvido absoluto?

Raphael Bender: Na história da ciência do ouvido absoluto, alguns pesquisadores separaram o ouvido absoluto em alguns tipos, o que sugere que, há algum tempo, é sabido que o ouvido absoluto não é uma habilidade única. No trabalho do nosso grupo de pesquisa, publicado em 2016, nós demonstramos que o ouvido absoluto não é uma habilidade tudo ou nada e propusemos um modelo estatístico para identificar pessoas com essa habilidade, assim como separamos os participantes em grupos com graus diferentes da habilidade.

Ouvido Absoluto é a habilidade de perceber a frequência dominante de um tom musical sem a necessidade de fazer comparações com outros tons armazenados na memória.

Educador Musical: É possível adquiri-lo com treinamento?

Raphael Bender: Sem dúvidas, o treinamento é fundamental para o desenvolvimento da habilidade, no entanto não se trata de qualquer treinamento e em qualquer momento. Um dos fatores mais  destacados para o desenvolvimento do ouvido absoluto é o período da vida em que o treinamento acontece. Ou seja, os sujeitos ensinados a relacionar a altura aos rótulos musicais dentro do “período sensível” do desenvolvimento (em média até os sete anos de idade) têm maior probabilidade de desenvolver a habilidade. Contudo, nem todas as pessoas que estudam música nessa fase da vida desenvolvem o ouvido absoluto, o que sugere que outros fatores como o tipo de treinamento musical e fatores genéticos podem influenciar o desenvolvimento da habilidade. Alguns pesquisadores afirmam que é possível desenvolver a habilidade na idade adulta, mas os resultados são poucos e controversos.

Educador Musical: Quais as principais diferenças entre o ouvido absoluto e o relativo?

Raphael Bender: A principal diferença entre essas duas habilidades é que, enquanto na primeira a pessoa não precisa de uma referência externa, a segunda precisa dessa referência, como uma nota de um diapasão ou uma nota musical que esteja armazenada na memória de longo prazo. O ouvido relativo é muito comum em músicos. Estes usam os intervalos entre sons para identificar uma determinada nota musical.

Educador Musical: O músico que tem ouvido absoluto terá, necessariamente, uma percepção musical mais apurada do que o músico que tem ouvido relativo?

Raphael Bender: Não necessariamente. Um músico com ouvido absoluto tem algumas facilidades na prática musical, como transcrever uma música, pegar uma música de ouvido, ou até mesmo memorizar uma melodia. No entanto, isso não quer dizer que ele terá uma percepção mais apurada. Alguns músicos com ouvido absoluto têm inclusive algumas dificuldades com a transposição de tom de uma música e até uma probabilidade de largar a prática musical com o envelhecimento, uma vez que a percepção musical se altera com as mudanças fisiológicas do envelhecimento.


Raphael Bender possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte, mestrado em Psicobiologia pela mesma universidade e doutorado em Neurociências pelo Instituto do Cérebro da UFRN. Atualmente é professor do Centro de Educação Profissional Prof. Lourdinha Guerra e desenvolve pesquisas sobre música e educação. Paralelamente, Raphael tem uma carreira musical como baterista atuando em diversos grupos musicais na sua cidade, Natal-RN.


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