Valéria Forte, diretora da CAEM, fala sobre as escolas de música

Valéria Forte, diretora da CAEM, fala sobre as escolas de música

[dropcap]C[/dropcap]om 14 anos de experiência à frente da CAEM – Central de Apoio às Escolas de Música, Valéria Forte conhece como poucos a realidade das escolas de música do país. Nesta entrevista, ela fala sobre o trabalho da CAEM, o papel das escolas de música na era da internet e um alerta sobre a necessidade de planejamento para quem vai abrir uma escola de música.

Educação Musical: Além do apoio às escolas de música, quais as outras frentes de trabalho da CAEM?

Valéria Forte: A CAEM – Central de Apoio às Escolas de Música – tem por objetivo principal profissionalizar o segmento musical: escolas de música, já que as áreas de marketing e gestão, principalmente, eram deixadas em segundo plano pelos diretores das escolas de música. A CAEM se preocupou em trazer informações através de cursos, debates, matérias e o Congresso Nacional CAEM para que estes profissionais possam aprender e se atualizar nas áreas em que mais têm carência. Decorrente desta ação, os diretores questionaram sobre a participação dos professores em nossas ações. Com isso, iniciamos um trabalho de oficinas e a capacitação para os instrutores e agregamos, desta maneira, professores em nosso trabalho. Outro área foi a interação entre diretores e empresas (fabricantes e importadores) de instrumentos musicais, pois sabemos que as escolas são um grande show-room para as marcas, e seus professores são os formadores de opinião frente aos alunos. A CAEM, através de parcerias com essas empresas, consegue condições especiais para as escolas que são filiadas a ela, gerando negócios diretos, sem intervenção de lojistas. Temos ainda uma lista de consultores credenciados de modo a dar suporte às necessidades dos filiados.

Educação Musical: A CAEM foi criada em 2004; são, portanto, 14 anos de atividades. Na sua opinião, quais foram as dificuldades mais frequentes enfrentadas pelas escolas de música nesse período?

Valéria Forte: Acredito que a falta de profissionalização foi o grande entrave. As escolas eram resistentes até para formalizar a empresa, ter CNPJ. Diria que, há 14 anos, cerca de 80% das escolas não possuía CNPJ. Esse índice hoje tende a zero. Com certeza, temos também de citar as ações do governo em facilitar o processo, a criação da MEI também ajudou bastante. Mas a conscientização dos diretores, a vontade de crescer e o fator de só poder comprar das parceiras sendo uma empresa formal fizeram com que houvesse motivos suficientes para esta ação. Em relação a dificuldades comerciais, podemos citar as crises econômicas que o país passou e passa: afinal, a educação musical seria um item supérfluo para algumas famílias. Entretanto, o preparo, o conhecimento de mercado e as inovações fizeram com que este segmento passasse de maneira mais tranquila pela situação. Os contratos dos alunos, que tendem a desistir na época das férias, é outra situação delicada, porém muitas escolas driblaram os pagamentos vendendo pacotes semestrais ou anuais, de maneira que as férias sejam embutidas nos pagamentos.

Educação Musical: As escolas livres de música exercem uma função importantíssima na formação musical de milhões de alunos, pois elas oferecem a eles o primeiro contato com um estudo musical organizado. Nestes anos à frente da CAEM, você percebeu uma maior profissionalização das escolas? Elas estão se preparando para receber as novas gerações de alunos que nasceram e vão crescer em um mundo digital e conectado?

Valéria Forte: Sim, as escolas de música são fundamentais para a formação de novas gerações de músicos, sejam eles amadores ou profissionais. Embora algumas escolas regulares ofereçam práticas musicais, estas nem sempre são motivadoras ou adequadas aos interesses de crianças e jovens. Já os cursos livres de música têm a proposta de trazer a música até o aluno de maneira agradável, prazerosa e na medida da possibilidade de estudo de cada indivíduo, tenha ele ou não o instrumento para estudo. E as escolas têm evoluído em vários aspectos, não só na gestão e no marketing, ou mesmo no atendimento, mas também na preocupação que elas têm tido em usar a tecnologia para que o aluno possa interagir com a escola, utilizando games, aulas complementares online e até plantão de dúvidas. Estamos num processo de transição: aonde iremos ainda não é sabido. No entanto, tenho certeza de que a aula de prática instrumental, de banda, o olho no olho e o “feeling” ainda são primordiais no aprendizado musical. Digo primordiais, não insubstituíveis.

Educação Musical: Vivemos um momento no qual uma quantidade imensa de canais com aulas de música está disponível na internet de forma gratuita. Para você, as escolas de música também devem disponibilizar conteúdo na rede, ou oferecer cursos online?

Valéria Forte: Como citei acima, há várias atividades sendo realizadas por escolas presenciais em formato online, isso é uma realidade, e a escola que não se aproveitar da tecnologia vai ficar defasada. Mas a tecnologia pode ser vista como complementar neste formato, não exclusiva, ainda. Com certeza, temos profissionais que ministram aulas em sistema online, cursos a distância, que, por vários motivos, são bem aceitos. Caso seja um profissional de destaque no meio musical, ou o aluno esteja muito afastado de regiões com mais possibilidades de ensino, a aula online é um sucesso!  Com relação às aulas disponíveis na rede, penso que podem ser motivadoras para que este aluno venha a desejar mais conteúdo e procurar uma escola de música em um médio espaço de tempo. Vários diretores comentam que recebem alunos de “vídeo-aulas” chegando a suas escolas comentando “já sei tocar, vim só fazer um aperfeiçoamento”. E lá na escola, descobrem um novo universo de possibilidades.

Educação Musical: Gostaria que você deixasse uma mensagem para quem está planejando abrir uma escola de música.

Valéria Forte: Sua colocação já diz tudo: PLANEJAMENTO. A maioria das escolas que existem hoje nasceram de um professor que dava aulas de seu instrumento, cresceu em número de alunos e resolveu abrir uma escola. Chamou um colega para dar aulas de outro instrumento, mais outro e, assim, de repente, ele tinha uma estrutura não planejada, nem didática nem muito menos financeiramente.

A primeira pergunta que se deve fazer é: por que quero abrir uma escola de música? Tem que gostar muito do que faz e de se relacionar com pessoas.

Depois: para quem quero dar aulas: crianças, bebês, adultos, jovens, melhor idade? E aí pensar na região/bairro que tenha uma população que venha ao encontro do seu objetivo. O ponto é muito importante: se for dar aula para bebês, deve ter estacionamento, espaço para mães ou babás; já para a terceira idade, é adequado que não haja escadas. Cada segmento tem suas necessidades.

Identidade: a escola deve ter a sua. Qual o perfil da escola – formal, informal, jovem, mista, infantil? Escola para a família? Não digo que essas possibilidades não possam coexistir, mas a maioria tem uma identificação e vende uma imagem.

Metodologia: toda escola precisa ter sua metodologia. Caso contrário, o professor é dono do aluno e não a escola. Já imaginou cada vez que mudar o professor, mudar toda a metodologia ou material do aluno?

Advogado: ter um contrato bem feito, tanto escola-aluno como escola-professor.

Contador: para realizar e organizar a empresa.

Seleção de profissionais: que comunguem do desejo de dar aulas e não somente tapar buracos enquanto estes não fazem sucesso ou não têm palco para tocar.

Investimento: levantamento de todo custo inicial, desde reforma, adequação das salas de aula, compra de instrumentos, recepção, isolamento no caso de bateria acústica, previsão de pagamento de profissionais. E calcular, no mínimo, um ano para começar a cobrir essas despesas iniciais. Ou seja, há de ter fôlego para um ano sem contar com verba de entrada. Assim, as coisas ficam mais tranquilas.

Obrigado pela entrevista!


CAEM – Central de Apoio as Escolas de Música

www.escolasdemusica.com.br

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